Quando suspeitar de Lúpus? Conheça os primeiros sinais da doença e os tratamentos mais atuais

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune crônica em que o sistema imunológico passa a atacar tecidos saudáveis do próprio organismo.
Por ser uma doença extremamente variável, pode acometer pele, articulações, rins, pulmões, coração, cérebro e células do sangue.
O diagnóstico precoce é um dos principais fatores para prevenir lesões permanentes e preservar a qualidade de vida.
Felizmente, os avanços da Reumatologia permitiram o desenvolvimento de novos tratamentos direcionados que modificaram significativamente o prognóstico dos pacientes.
-O que é o lúpus?
O lúpus é uma doença inflamatória autoimune que ocorre quando há perda da tolerância imunológica, levando à produção de autoanticorpos e inflamação em diferentes órgãos.
Embora possa acometer homens e mulheres, cerca de 90% dos casos ocorrem em mulheres, principalmente entre os 15 e 45 anos.
-Quando devemos suspeitar de lúpus?
Os sintomas podem surgir lentamente e variar bastante entre os pacientes. Entretanto, alguns sinais merecem atenção.
1. Dor e inchaço nas articulações
Um dos sintomas mais frequentes é a artrite inflamatória, principalmente em:
●mãos;
●punhos;
●joelhos;
●tornozelos.
Ao contrário da artrite reumatoide, normalmente essa artrite não provoca erosões ósseas, mas pode causar dor importante e rigidez matinal.
2. Manchas na pele após exposição ao sol
A fotossensibilidade é uma característica clássica do lúpus.
Após exposição solar podem surgir:
●vermelhidão intensa;
●manchas avermelhadas;
●lesões em áreas expostas;
●piora da atividade da doença.
O chamado “rash malar” ou “asa de borboleta”, localizado sobre as maçãs do rosto e dorso do nariz, é um dos sinais mais conhecidos do lúpus.
3. Queda de cabelo
A alopecia pode ocorrer devido à inflamação provocada pela própria doença.
Muitos pacientes relatam queda acentuada dos fios durante períodos de atividade do lúpus.
4. Feridas na boca ou no nariz
Úlceras orais ou nasais recorrentes, geralmente indolores, fazem parte dos critérios classificatórios da doença.
Quando associadas a outros sintomas, aumentam bastante a suspeita diagnóstica.
5. Cansaço intenso e febre sem causa aparente
A fadiga é um dos sintomas mais incapacitantes do lúpus.
É comum o paciente apresentar:
●fadiga persistente;
●febre baixa recorrente;
●perda de peso;
●sensação constante de indisposição.
6. Alterações urinárias
O comprometimento renal é uma das manifestações mais importantes do lúpus.
Procure avaliação médica caso ocorram:
●urina espumosa;
●sangue na urina;
●inchaço nas pernas;
●aumento da pressão arterial;
●piora da função renal.
A nefrite lúpica pode evoluir silenciosamente, tornando fundamental o acompanhamento regular.
-Quais exames ajudam no diagnóstico?
Não existe um exame isolado que confirme o lúpus.
O diagnóstico é baseado na combinação entre história clínica, exame físico e exames laboratoriais.
Entre os principais exames estão:
●FAN;
●Anti-DNA dupla hélice;
●Anti-Sm;
●Complemento C3 e C4;
●Hemograma;
●Urina tipo I;
●Relação proteína/creatinina urinária;
●Creatinina.
-O lúpus tem cura?
Atualmente o lúpus não possui cura definitiva.
Entretanto, com diagnóstico precoce e tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue atingir remissão ou baixa atividade da doença, levando uma vida ativa e produtiva.
-Como é o tratamento do lúpus?
O tratamento é individualizado conforme os órgãos acometidos e a gravidade da doença.
As principais medicações incluem:
●Hidroxicloroquina (indicada para praticamente todos os pacientes, salvo contraindicações);
●Corticoides;
●Azatioprina;
●Micofenolato de mofetila;
●Metotrexato;
●Ciclofosfamida (casos graves);
●Tacrolimo ou voclosporina em situações específicas de nefrite lúpica.
Além dos medicamentos, recomenda-se:
●proteção solar diária;
●vacinação conforme orientação médica;
●prática regular de atividade física;
●cessação do tabagismo;
●controle rigoroso dos fatores de risco cardiovascular.
-Novos tratamentos imunobiológicos aprovados no Brasil
Nos últimos anos houve uma verdadeira transformação no tratamento do lúpus com a aprovação de terapias-alvo que atuam em mecanismos específicos do sistema imunológico.
Belimumabe (Benlysta®)
Foi o primeiro imunobiológico desenvolvido especificamente para o lúpus.
Atua bloqueando a proteína BLyS (BAFF), reduzindo a sobrevivência de linfócitos B autorreativos.
Está aprovado no Brasil para pacientes com lúpus eritematoso sistêmico ativo e também para nefrite lúpica ativa, em associação ao tratamento convencional. (GSK Brasil)
Anifrolumabe (Saphnelo®)
O anifrolumabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia o receptor do interferon tipo I, uma das principais vias envolvidas na inflamação do lúpus.
Está aprovado pela ANVISA para adultos com lúpus eritematoso sistêmico moderado a grave, positivo para autoanticorpos, que permanecem com atividade da doença apesar do tratamento padrão.Os estudos demonstraram melhora significativa das manifestações cutâneas e articulares, além de maior possibilidade de redução do uso de corticoides. (EncontrAR – GRUPAR)
Obinutuzumabe.Mais recentemente, a ANVISA aprovou a extensão de indicação do obinutuzumabe para adultos com nefrite lúpica proliferativa (classes III e IV, com ou sem classe V), em associação ao tratamento padrão. Essa aprovação amplia as opções terapêuticas para pacientes com uma das manifestações mais graves do lúpus.
-O futuro do tratamento do lúpus
Diversas novas terapias estão em desenvolvimento e vêm demonstrando resultados promissores, incluindo anticorpos anti-CD20 de nova geração, terapias celulares e medicamentos direcionados a vias específicas da resposta imune.
O objetivo da Reumatologia moderna é controlar a atividade da doença com menor exposição aos corticoides, reduzindo danos permanentes aos órgãos e melhorando a qualidade de vida dos pacientes.
-Conclusão
O lúpus é uma doença complexa, mas o diagnóstico precoce pode transformar completamente seu prognóstico.
Sintomas como dor nas articulações, manchas na pele após exposição ao sol, queda de cabelo, feridas recorrentes na boca, fadiga intensa e alterações urinárias merecem investigação especializada.
Hoje contamos com tratamentos cada vez mais eficazes, incluindo imunobiológicos como o belimumabe e o anifrolumabe, além de novas opções para nefrite lúpica, permitindo maior controle da doença, redução do uso de corticoides e melhor qualidade de vida.
Se você apresenta sintomas sugestivos de lúpus ou já recebeu esse diagnóstico, procure acompanhamento com um reumatologista. Um tratamento individualizado e iniciado precocemente faz toda a diferença.
Dra. Lara Ribeiro Teixeira
Médica Reumatologista  com formação pela UNICAMP
Atendimento em Jundiaí/SP
Especialista em doenças autoimunes, lúpus, artrite reumatoide, espondiloartrites, fibromialgia e dor crônica.