• Descubra o que é a gota, quais são seus principais sintomas, por que o ácido úrico aumenta, como é feito o tratamento e quais alimentos ajudam a prevenir novas crises.
O que é a gota?
A gota, também chamada de artrite gotosa, é uma doença inflamatória causada pelo depósito de cristais de urato monossódico nas articulações e em outros tecidos do organismo. Esses cristais se formam quando o nível de ácido úrico no sangue permanece elevado por um longo período, condição conhecida como hiperuricemia.
A gota é uma das formas mais comuns de artrite inflamatória em adultos e, embora seja mais frequente em homens acima dos 40 anos, também pode acometer mulheres, especialmente após a menopausa.
Atualmente, a gota é considerada uma doença tratável e, quando diagnosticada precocemente, pode ser completamente controlada, evitando crises dolorosas e lesões articulares permanentes.
O que causa o aumento do ácido úrico?
O ácido úrico é produzido naturalmente pelo organismo durante o metabolismo das purinas, substâncias presentes em nossas células e em diversos alimentos.
Na maioria dos pacientes, o problema não está no excesso de produção, mas sim na dificuldade dos rins em eliminar o ácido úrico adequadamente.
Diversos fatores aumentam esse risco:
* predisposição genética;
* doença renal crônica;
* obesidade;
* síndrome metabólica;
* diabetes;
* hipertensão arterial;
* consumo excessivo de bebidas alcoólicas, principalmente cerveja;
* refrigerantes e bebidas adoçadas com frutose;
* uso de diuréticos (como hidroclorotiazida e furosemida);
* alguns medicamentos imunossupressores, como a ciclosporina.
É importante destacar que nem toda pessoa com ácido úrico elevado desenvolverá gota. Entretanto, quanto maior e mais prolongada a hiperuricemia, maior o risco de formação de cristais e de crises.
Quais são os sintomas da gota?
Crise aguda de gota
A forma mais conhecida da doença é a crise aguda.
Ela costuma surgir de forma súbita, frequentemente durante a madrugada.
Os principais sintomas são:
* dor extremamente intensa;
* inchaço importante da articulação;
* vermelhidão;
* aumento da temperatura local;
* dificuldade para caminhar ou movimentar a articulação.
A articulação mais frequentemente acometida é a base do dedão do pé (primeira metatarsofalângica), quadro conhecido como podagra.
Entretanto, outras articulações também podem ser acometidas, como:
* tornozelos;
* joelhos;
* punhos;
* cotovelos;
* mãos.
Sem tratamento, a crise costuma durar entre alguns dias e duas semanas.
Quais são as formas clínicas da gota?
1. Hiperuricemia assintomática
O paciente apresenta ácido úrico elevado, mas ainda não desenvolveu sintomas.
Nem todos os pacientes nessa fase necessitam de tratamento medicamentoso, devendo a decisão ser individualizada.
1. Artrite gotosa aguda
É a fase caracterizada pelas crises intensas de dor e inflamação articular.
Pode ser desencadeada por:
* consumo excessivo de álcool;
* refeições muito ricas em carnes;
* desidratação;
* cirurgias;
* infecções;
* traumas.
1. Gota intercrítica
É o período entre uma crise e outra.
Mesmo sem dor, os cristais continuam depositados nas articulações, podendo causar inflamação silenciosa.
Por isso, a ausência de sintomas não significa que a doença esteja curada.
1. Gota tofácea crônica
Quando a hiperuricemia permanece sem controle durante muitos anos, podem surgir os chamados tofos, que são depósitos de cristais de ácido úrico.
Os tofos podem aparecer:
* dedos das mãos;
* cotovelos;
* joelhos;
* pés;
* tornozelos;
* tendão de Aquiles;
* orelhas.
Além do comprometimento estético, podem causar destruição articular, deformidades e limitação funcional.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é realizado pelo reumatologista por meio da avaliação clínica associada aos exames complementares.
Os principais exames incluem:
* dosagem de ácido úrico;
* função renal;
* ultrassonografia musculoesquelética;
* radiografias;
* tomografia computadorizada por dupla energia (Dual-Energy CT) em casos selecionados.
O padrão-ouro para confirmação diagnóstica continua sendo a identificação de cristais de urato monossódico no líquido retirado da articulação por punção (artrocentese), analisado ao microscópio de luz polarizada.
Na ultrassonografia, um achado bastante característico é o “sinal do duplo contorno”, que representa o depósito de cristais sobre a cartilagem.
Como é o tratamento?
O tratamento possui dois objetivos principais:
* aliviar rapidamente a crise aguda;
* prevenir novas crises e impedir a formação de tofos.
Tratamento da crise aguda
Quando iniciado nas primeiras 24 horas, costuma apresentar melhores resultados.
As principais opções incluem:
* anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs);
* colchicina;
* corticoides orais ou infiltração intra-articular, quando indicados.
Em pacientes com contraindicação às terapias convencionais, medicamentos que bloqueiam a interleucina-1, como o canaquinumabe, podem ser considerados em situações específicas.
Tratamento para reduzir o ácido úrico
Após o controle da crise, muitos pacientes necessitam iniciar tratamento para reduzir permanentemente o ácido úrico.
As principais medicações são:
* alopurinol (primeira escolha na maioria dos pacientes);
* febuxostate (alternativa quando há intolerância ou contraindicação ao alopurinol);
* uricosúricos, em casos selecionados.
Durante os primeiros meses do tratamento é comum manter colchicina em baixa dose para reduzir o risco de novas crises.
O objetivo é manter o ácido úrico:
* abaixo de 6 mg/dL para a maioria dos pacientes;
* abaixo de 5 mg/dL nos pacientes com gota tofácea ou doença mais grave.
Alimentação: quais alimentos ajudam a reduzir o ácido úrico?
Embora a dieta isoladamente raramente seja suficiente para controlar a gota, hábitos saudáveis contribuem para reduzir o risco de novas crises.
Alimentos que devem ser reduzidos
* vísceras (fígado, rim, coração);
* carnes vermelhas em excesso;
* frutos do mar (camarão, mexilhão, sardinha, anchova);
* cerveja e bebidas alcoólicas;
* refrigerantes e bebidas adoçadas com frutose;
* alimentos ultraprocessados.
Alimentos que podem ajudar
* leite e derivados com baixo teor de gordura;
* frutas, especialmente cerejas;
* verduras e legumes;
* café (consumo moderado, quando não houver contraindicação);
* vitamina C obtida por meio da alimentação;
* água em quantidade adequada para manter boa hidratação.
A perda de peso em pacientes com obesidade também reduz significativamente o risco de novas crises.
Quem tem ácido úrico alto precisa tratar?
Nem sempre.
A decisão depende de diversos fatores, incluindo:
* número de crises;
* presença de tofos;
* doença renal crônica;
* cálculos renais;
* nível do ácido úrico;
* achados em exames de imagem.
Por isso, o tratamento deve ser individualizado.
Conclusão
A gota é uma doença inflamatória causada pelo depósito de cristais de ácido úrico nas articulações. Apesar de provocar crises extremamente dolorosas, é uma das doenças reumatológicas com melhor resposta ao tratamento quando diagnosticada precocemente.
Além dos medicamentos, mudanças no estilo de vida, controle do peso, hidratação adequada e uma alimentação equilibrada são fundamentais para reduzir novas crises e prevenir complicações.
Se você apresenta crises recorrentes de dor intensa nas articulações, especialmente no dedão do pé, tornozelos ou joelhos, procure avaliação com um reumatologista. O diagnóstico correto e o tratamento adequado podem evitar deformidades articulares e melhorar significativamente sua qualidade de vida.
Dra. Lara Ribeiro Teixeira
Médica Reumatologista – UNICAMP
Atendimento em Jundiaí/SP
Especialista em doenças reumáticas, gota, artrite, osteoporose, doenças autoimunes e dor crônica.
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