– Descubra os primeiros sintomas da esclerose sistêmica (esclerodermia), como é feito o diagnóstico, quais órgãos podem ser acometidos e conheça os tratamentos mais modernos disponíveis atualmente.

O que é a Esclerose Sistêmica?

A esclerose sistêmica, também conhecida como esclerodermia, é uma doença autoimune rara e crônica caracterizada por inflamação dos vasos sanguíneos, alterações do sistema imunológico e produção excessiva de colágeno, levando ao endurecimento da pele e, em alguns casos, ao comprometimento de órgãos internos como pulmões, coração, rins e trato gastrointestinal.

Embora ainda não exista cura definitiva, os avanços da Reumatologia têm permitido diagnóstico mais precoce e tratamentos capazes de retardar a progressão da doença, preservar a função dos órgãos e melhorar significativamente a qualidade de vida.

O reconhecimento precoce dos sintomas é essencial, pois o tratamento iniciado nos estágios iniciais está associado a melhores resultados.

Quais são os primeiros sintomas da Esclerose Sistêmica?

Os sintomas podem surgir lentamente e variar bastante de um paciente para outro. Entretanto, alguns sinais devem chamar atenção.

1. Fenômeno de Raynaud

Na maioria dos pacientes, o primeiro sintoma é o Fenômeno de Raynaud.

Os dedos das mãos (e, às vezes, dos pés) mudam de cor após exposição ao frio ou situações de estresse emocional, passando por uma sequência característica:

* branco (falta de circulação);
* azul ou arroxeado (redução do oxigênio);
* vermelho (retorno do fluxo sanguíneo).

Além da mudança de cor, podem ocorrer:

* dor;
* formigamento;
* dormência;
* sensação de queimação.

Quando o Fenômeno de Raynaud surge na vida adulta, especialmente após os 30 anos, é intenso, assimétrico ou associado a outros sintomas, deve ser investigado por um reumatologista, pois pode representar uma manifestação inicial da esclerose sistêmica ou de outras doenças autoimunes.

1. Inchaço dos dedos (Puffy Fingers)

Muitos pacientes relatam que os dedos ficam inchados logo pela manhã, dificultando retirar alianças ou fechar completamente as mãos.

Esse edema costuma anteceder o endurecimento da pele.

1. Endurecimento da pele

Progressivamente a pele torna-se:

* espessa;
* endurecida;
* brilhante;
* menos elástica.

Inicialmente acomete dedos e mãos, podendo evoluir para antebraços, braços, tronco e face, dependendo da forma clínica da doença.

1. Refluxo e dificuldade para engolir

A esclerose sistêmica frequentemente acomete o esôfago.

Os sintomas incluem:

* azia frequente;
* refluxo gastroesofágico;
* dificuldade para engolir;
* sensação de alimento parado.

Essas alterações ocorrem devido ao comprometimento da musculatura do esôfago.

1. Falta de ar aos esforços

O comprometimento pulmonar representa uma das principais causas de morbidade na doença.

O paciente pode notar:

* cansaço progressivo;
* falta de ar ao subir escadas;
* tosse seca persistente;
* redução da capacidade física.

Esses sintomas merecem investigação precoce, pois podem indicar doença pulmonar intersticial ou hipertensão pulmonar.

Quais órgãos podem ser acometidos?

A esclerose sistêmica é considerada uma doença multissistêmica.

Pele

As manifestações cutâneas incluem:

* espessamento da pele;
* perda das rugas naturais;
* dificuldade para abrir totalmente a boca;
* redução da expressão facial;
* úlceras nas pontas dos dedos;
* calcificações sob a pele;
* telangiectasias (pequenos vasos aparentes).

Uma característica clássica é a chamada face esclerodérmica, caracterizada por pele esticada, afinamento dos lábios, redução da abertura da boca (microstomia) e diminuição das pregas naturais da face.

Pulmões

O pulmão é um dos órgãos mais frequentemente acometidos.

As principais manifestações são:

* doença pulmonar intersticial (fibrose pulmonar);
* hipertensão arterial pulmonar.

Por esse motivo, recomenda-se acompanhamento periódico com tomografia computadorizada de alta resolução, provas de função pulmonar e ecocardiograma.

Trato gastrointestinal

Até 90% dos pacientes apresentam algum grau de acometimento digestivo.

Podem ocorrer:

* refluxo;
* dificuldade para engolir;
* distensão abdominal;
* constipação;
* diarreia;
* má absorção intestinal.

Coração

O acometimento cardíaco pode incluir:

* arritmias;
* inflamação do músculo cardíaco;
* derrame pericárdico;
* insuficiência cardíaca.

Rins

Embora menos frequente atualmente, a crise renal esclerodérmica é uma complicação grave caracterizada por aumento súbito da pressão arterial e rápida perda da função renal, exigindo tratamento imediato.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é baseado na combinação entre história clínica, exame físico e exames complementares.

Os principais exames incluem:

* FAN (frequentemente positivo);
* anticorpo anticentrômero;
* anti-topoisomerase I (anti-Scl-70);
* anti-RNA polimerase III;
* capilaroscopia periungueal;
* tomografia computadorizada de alta resolução do tórax;
* provas de função pulmonar;
* ecocardiograma.

A capilaroscopia periungueal é um exame simples e não invasivo que permite avaliar os pequenos vasos da região das unhas e frequentemente detecta alterações características da esclerose sistêmica ainda nas fases iniciais.

Existe cura?

Atualmente não existe cura definitiva.

Entretanto, os tratamentos modernos conseguem controlar os sintomas, retardar a progressão da doença e reduzir significativamente o risco de complicações.

Quanto mais precoce o diagnóstico, melhores costumam ser os resultados.

Como é o tratamento?

O tratamento depende dos órgãos acometidos e da gravidade da doença.

Pode incluir:

Imunossupressores

* Micofenolato de mofetila;
* Metotrexato;
* Azatioprina;
* Ciclofosfamida.

Tratamento do Fenômeno de Raynaud

* bloqueadores dos canais de cálcio (como nifedipino);
* inibidores da fosfodiesterase-5 (como sildenafil ou tadalafila);
* prostanoides intravenosos em casos graves.

Tratamento gastrointestinal

* inibidores da bomba de prótons;
* procinéticos;
* orientação nutricional.

Tratamento pulmonar

Pacientes com doença pulmonar intersticial podem se beneficiar de:

* micofenolato;
* ciclofosfamida;
* nintedanibe, que demonstrou reduzir a velocidade de progressão da fibrose pulmonar associada à esclerose sistêmica.

Novas perspectivas de tratamento

Nos últimos anos houve avanços importantes no tratamento da esclerose sistêmica.

Rituximabe

Estudos demonstram benefício principalmente na doença pulmonar intersticial e no espessamento cutâneo em pacientes selecionados, sendo utilizado em centros especializados.

Tocilizumabe

O tocilizumabe mostrou capacidade de preservar a função pulmonar em pacientes com esclerose sistêmica precoce e doença pulmonar intersticial, sendo aprovado em diversos países para essa indicação.

Nintedanibe

É o primeiro antifibrótico aprovado especificamente para reduzir a progressão da doença pulmonar intersticial associada à esclerose sistêmica, representando um marco importante no tratamento.

Transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas

Em pacientes com doença difusa rapidamente progressiva e alto risco de evolução desfavorável, o transplante autólogo de células-tronco pode ser considerado em centros altamente especializados, após criteriosa seleção.

Novas terapias em desenvolvimento

Diversas moléculas estão sendo investigadas em estudos clínicos, incluindo medicamentos direcionados às vias do TGF-β, IL-6, endotelina-1 e outras proteínas envolvidas na fibrose, trazendo perspectivas promissoras para os próximos anos.

Conclusão

A esclerose sistêmica é uma doença autoimune rara, mas potencialmente grave, especialmente quando há comprometimento pulmonar, cardíaco ou renal.

O reconhecimento precoce de sintomas como Fenômeno de Raynaud, inchaço dos dedos, endurecimento da pele, refluxo persistente e falta de ar pode permitir o diagnóstico em fases iniciais, quando as intervenções são mais eficazes.

Hoje, graças aos avanços da Reumatologia, existem tratamentos capazes de retardar a progressão da doença, preservar a função dos órgãos e melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

Se você apresenta sintomas sugestivos de esclerose sistêmica ou já recebeu esse diagnóstico, procure acompanhamento com um reumatologista. A avaliação especializada e o tratamento individualizado fazem toda a diferença na evolução da doença.

Dra. Lara Ribeiro Teixeira
Médica Reumatologista – UNICAMP
Atendimento em Jundiaí/SP
Especialista em doenças autoimunes, esclerose sistêmica, artrite reumatoide, lúpus, fibromialgia e dor crônica.

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