Por Dra. Lara Ribeiro Teixeira – Reumatologista em Jundiaí
A Doença de Behçet é uma condição inflamatória crônica, rara e ainda pouco conhecida do público, que pode afetar múltiplos sistemas do corpo da pele aos olhos, passando por articulações, vasos sanguíneos e, em casos mais graves, o sistema nervoso. Por ser uma doença de diagnóstico complexo e sintomas que se confundem com outras condições, muitos pacientes demoram anos até receber o diagnóstico correto.
Neste artigo, explico o que é a doença, como reconhecer os sinais de alerta e quais são as recomendações mais recentes de tratamento segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a EULAR (European Alliance of Associations for Rheumatology) e o ACR (American College of Rheumatology).
O que é a Doença de Behçet?
A Doença de Behçet – também chamada de Síndrome de Behçet é uma vasculite sistêmica, ou seja, uma inflamação que pode acometer vasos sanguíneos de diferentes tamanhos em várias partes do corpo. É considerada uma doença autoimune e autoinflamatória, mais comum em países ao longo da antiga Rota da Seda (Turquia, Irã, países do Mediterrâneo e da Ásia), mas que também ocorre no Brasil, embora seja mais rara por aqui.
O nome é uma homenagem ao dermatologista turco Hulusi Behçet, que descreveu a tríade clássica da doença em 1937: aftas orais recorrentes, úlceras genitais e inflamação ocular (uveíte).
Principais sintomas
Os sintomas variam bastante de pessoa para pessoa, e nem todos os pacientes apresentam todas as manifestações. Os mais comuns incluem:
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Aftas orais recorrentes – geralmente o primeiro sintoma a aparecer, e o mais frequente
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Úlceras genitais – dolorosas e recorrentes
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Manifestações oculares – uveíte, que pode ameaçar a visão se não tratada a tempo
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Lesões de pele – como eritema nodoso e lesões semelhantes a foliculite
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Artrite – dor e inchaço articular, geralmente não erosiva
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Manifestações vasculares – tromboses venosas, aneurismas arteriais
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Envolvimento neurológico – mais raro, mas potencialmente grave
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Envolvimento gastrointestinal – úlceras no trato digestivo
Por ter um espectro tão amplo de manifestações, o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em critérios internacionais e na exclusão de outras doenças com quadro semelhante.
Novas perspectivas de tratamento
O tratamento da Doença de Behçet mudou nos últimos anos, e a atualização mais recente das recomendações da EULAR, publicada em 2025, trouxe mudanças importantes em relação à versão anterior de 2018.
O que dizem as diretrizes atuais
Segundo a atualização 2025 das recomendações EULAR, para manifestações mucocutâneas e articulares, a colchicina continua sendo o tratamento de primeira linha. Para pacientes que não respondem adequadamente, o apremilaste e imunossupressores como os inibidores do TNF-alfa passam a ser recomendados como próxima linha de tratamento.
Uma das mudanças mais relevantes é a orientação para casos com envolvimento de órgãos considerados de maior risco (olhos, vasos sanguíneos e sistema nervoso): as diretrizes atuais recomendam o uso mais precoce de anticorpos monoclonais anti-TNF, tanto para controlar uma crise ativa quanto para prevenir recidivas uma mudança em relação à abordagem mais conservadora de anos anteriores.
Para tromboses venosas agudas, incluindo tromboses de seios venosos cerebrais, a recomendação é o uso combinado de glicocorticoides e imunossupressores, com preferência para anticorpos monoclonais anti-TNF quando há indicação clínica.
As diretrizes também reforçam princípios importantes de cuidado geral:
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A doença tem curso recidivante e remitente, exigindo tratamento individualizado conforme a atividade da doença e fatores de risco de cada paciente
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É essencial uma abordagem multidisciplinar, envolvendo reumatologista, oftalmologista, dermatologista e, quando necessário, neurologista e gastroenterologista
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Educação do paciente e decisão compartilhada são partes centrais do plano terapêutico
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O objetivo do tratamento é prevenir dano irreversível a órgãos e maximizar a qualidade de vida do paciente
Por que isso importa para o paciente
Essas atualizações refletem um movimento importante na reumatologia: tratar de forma mais precoce e mais direcionada os casos de maior risco, evitando que complicações graves como perda de visão ou eventos vasculares se instalem. Ao mesmo tempo, para os casos mais leves, o tratamento permanece simples e acessível, começando pela colchicina.
Quando procurar um reumatologista
Se você tem aftas orais recorrentes associadas a outros sintomas como lesões genitais, alterações na visão, dores articulares ou lesões de pele que não cicatrizam – vale buscar avaliação com um reumatologista. O diagnóstico precoce é fundamental para iniciar o tratamento antes que ocorram complicações mais sérias, principalmente oculares e vasculares.
Sobre a autora: Dra. Lara Ribeiro Teixeira é médica reumatologista formada pela UNICAMP, membro da Sociedade Brasileira de Reumatologia e da Sociedade Paulista de Reumatologia, com atuação em Jundiaí/SP no diagnóstico e tratamento de doenças autoimunes e reumatológicas, incluindo terapias imunobiológicas.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um especialista.

