Quando procurar um reumatologista? Sinais de alerta para doenças autoimunes

Por Dra. Lara Ribeiro — Médica Reumatologista | CRM-SP 151908 | RQE 88648

Rigidez ao acordar, dores em várias articulações, lesões na pele e cansaço persistente podem parecer problemas separados. Em algumas pessoas, porém, fazem parte de uma mesma doença reumatológica.

O reumatologista investiga doenças das articulações, músculos e tecido conjuntivo, incluindo condições autoimunes e inflamatórias. Também acompanha problemas como fibromialgia, osteoartrite e outras causas de dor.

Você não precisa ter um diagnóstico confirmado ou exames alterados para procurar avaliação. A consulta começa pela história dos sintomas e pelo exame físico.

1. Rigidez matinal e dores em várias articulações

A sensação de estar “travado” ao acordar merece atenção quando é frequente, prolongada e acompanhada de dor ou inchaço.

Rigidez que dura mais de 30 a 60 minutos pode sugerir inflamação, embora esse tempo, isoladamente, não estabeleça um diagnóstico.

As poliartralgias, ou dores em várias articulações, precisam ser investigadas quando persistem, se repetem ou limitam as atividades. Inchaço nas mãos, punhos ou pés aumenta a suspeita de artrite inflamatória.

Na artrite reumatoide, reconhecer e tratar a inflamação precocemente ajuda a reduzir o risco de lesões articulares. Não espere deformidades para procurar atendimento. (rheumatology.org)

2. Lombalgia ou cervicalgia crônica com rigidez

Dor nas costas ou no pescoço é comum e tem diversas causas. Alguns padrões, entretanto, merecem investigação reumatológica.

Na lombalgia, chamam atenção:

* Dor persistente por mais de três meses, especialmente quando começou antes dos 45 anos.
* Melhora com movimento e pouca melhora com repouso.
* Rigidez ao acordar.
* Dor que desperta durante a noite.
* Dor nos glúteos, às vezes alternando os lados.

Esse conjunto pode levantar a suspeita de espondiloartrite axial, que inclui a espondilite anquilosante. Psoríase, inflamação ocular e doença inflamatória intestinal são informações importantes para a consulta. (niams.nih.gov)

Cervicalgia persistente com rigidez e limitação também merece avaliação, sobretudo quando acompanhada de outros sinais inflamatórios. Dor cervical isolada, porém, frequentemente tem causas musculares ou degenerativas.

3. Febre recorrente e fadiga persistente

Febre sem causa esclarecida, cansaço que limita a rotina e perda de peso involuntária precisam ser investigados.

Esses sintomas podem ocorrer em doenças inflamatórias, mas também em infecções, anemia, alterações hormonais e outras condições. A avaliação clínica inicial ajuda a definir quais especialistas e exames são necessários.

A associação com articulações inchadas, lesões cutâneas ou alterações urinárias torna especialmente importante considerar uma doença sistêmica.

4. Lesões na pele e mudanças de cor nos dedos

Algumas manifestações cutâneas podem ajudar a identificar doenças reumatológicas:

* Manchas que aparecem ou pioram após exposição solar.
* Lesões avermelhadas ou arroxeadas persistentes.
* Psoríase acompanhada de dor ou inchaço articular.
* Espessamento ou endurecimento da pele.
* Dedos que ficam brancos, azulados e depois avermelhados com frio ou estresse.

Essa mudança de cor é chamada de fenômeno de Raynaud. Ela pode ocorrer sem doença autoimune, mas merece investigação quando surge com feridas nos dedos, alterações da pele ou outros sintomas. Lúpus, esclerose sistêmica e artrite psoriásica estão entre as doenças que podem apresentar manifestações na pele. (niams.nih.gov)

5. Úlceras orais e genitais de repetição

Aftas ocasionais são comuns. Entretanto, feridas frequentes, numerosas ou importantes na boca, especialmente quando associadas a úlceras genitais recorrentes, precisam ser avaliadas.

Essa associação pode ocorrer na doença de Behçet, uma condição inflamatória que também pode afetar olhos, pele, articulações e vasos sanguíneos. Outras causas, incluindo infecções, devem ser investigadas. (rheumatology.org.uk)

Úlceras na boca também podem aparecer no lúpus. Dor ocular, olho vermelho com sensibilidade à luz ou alteração da visão exigem avaliação oftalmológica rápida.

6. Dor difusa por mais de três meses

Dor em várias regiões do corpo, acompanhada de fadiga, sono não reparador e dificuldade de concentração, merece avaliação.

Uma das possibilidades é a fibromialgia, que não é uma doença autoimune. Ela pode existir isoladamente ou coexistir com outras condições reumatológicas.

O diagnóstico depende da avaliação clínica. Ter dor difusa não significa, por si só, que haja inflamação ou que seja necessário usar imunossupressores. (niams.nih.gov)

7. Perda de força muscular

Dificuldade progressiva para levantar de uma cadeira, subir escadas, erguer os braços ou pentear o cabelo pode representar perda de força.

Esse quadro é diferente de sentir apenas dor ou cansaço. Entre as possíveis causas estão as miopatias inflamatórias, como a dermatomiosite.

A investigação pode incluir exame da força, dosagem de enzimas musculares e outros testes selecionados. Fraqueza acompanhada de dificuldade para engolir ou respirar exige avaliação urgente. (rheumatology.org)

8. FAN ou fator reumatoide alterados

Receber um resultado positivo de FAN ou fator reumatoide pode gerar preocupação. Mas nenhum desses exames confirma uma doença autoimune sozinho.

O FAN pode ser positivo em pessoas saudáveis. Sua interpretação considera o título, o padrão, os sintomas e os demais achados. Um resultado isolado não significa automaticamente lúpus nem necessidade de tratamento. (rheumatology.org)

O fator reumatoide pode apoiar a investigação de artrite reumatoide, mas também pode estar presente em outras situações. Além disso, existem pacientes com artrite reumatoide que não apresentam esse anticorpo.

Exames normais também não descartam todas as doenças reumatológicas. Por isso, não é necessário fazer um “painel autoimune” por conta própria antes da consulta.

9. VHS, PCR ou ferritina elevados

VHS e proteína C reativa, ou PCR, são marcadores que ajudam a avaliar inflamação. Eles podem aumentar em doenças reumatológicas, infecções e outras condições; não identificam a causa sozinhos.

A ferritina informa sobre os estoques de ferro, mas também pode se elevar durante processos inflamatórios. Seu aumento precisa ser interpretado no contexto clínico e não confirma uma doença autoimune. (who.int, who.int)

Resultados persistentemente alterados, especialmente quando acompanhados de sintomas, merecem investigação direcionada.

Outros sinais que devem ser relatados

Olhos e boca persistentemente secos, dedos muito inchados, dor recorrente nos calcanhares, feridas de difícil cicatrização, alterações urinárias e episódios de inflamação ocular também podem contribuir para a investigação.

O que orienta o diagnóstico é a combinação dos achados, sua evolução e o exame físico — não apenas um sintoma ou resultado laboratorial.

Como é a consulta com o reumatologista?

Na consulta, avaliamos quando os sintomas começaram, quanto tempo duram, o que melhora ou piora a dor e quais outras manifestações estão presentes.

Leve seus exames anteriores, a lista de medicamentos e, se possível, fotografias de lesões ou inchaços que desaparecem antes da consulta.

Os exames complementares são solicitados conforme a suspeita clínica. Nem todas as pessoas precisam de FAN, fator reumatoide ou exames de imagem.

Quando procurar atendimento de urgência?

Falta de ar, dor no peito, perda súbita da visão, fraqueza rapidamente progressiva, febre com uma articulação muito inchada ou alterações neurológicas exigem atendimento imediato.

Para os demais sintomas persistentes ou recorrentes, programe uma avaliação. Não é necessário esperar meses quando há articulações inchadas, perda de força ou outras manifestações importantes.

Se você procura reumatologista em Jundiaí para investigar dores articulares, rigidez matinal ou suspeita de doença autoimune, uma consulta pode ajudar a esclarecer a causa e definir os próximos cuidados.

Dra. Lara Ribeiro — Reumatologia em Jundiaí.

Conteúdo educativo. Os sintomas descritos têm diferentes causas e devem ser avaliados individualmente.

Referências

* American College of Rheumatology. Rheumatoid Arthritis; Antinuclear Antibodies; Inflammatory Myopathies. Materiais educativos para pacientes.
* National Institute of Arthritis and Musculoskeletal and Skin Diseases — NIH. Ankylosing Spondylitis; Fibromyalgia; Arthritis and Rheumatic Diseases.
* British Society for Rheumatology. Guideline for the management of people with Behçet’s.
* World Health Organization. WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations. 2020.

5 sinais de que o lúpus está entrando em atividade

Por Dra. Lara Ribeiro — Médica Reumatologista | CRM-SP 151908 | RQE 88648

O lúpus pode alternar períodos de controle com fases de maior inflamação, chamadas de atividade da doença. Reconhecer mudanças no corpo ajuda a procurar atendimento e ajustar o tratamento no momento adequado.

Mas atenção: nem todo cansaço, dor ou alteração na pele significa uma crise de lúpus. Infecções, efeitos de medicamentos e outras condições podem provocar sintomas semelhantes. A avaliação com o reumatologista reúne os sintomas, o exame físico e os resultados laboratoriais para entender o que está acontecendo.

1. Dor e inchaço nas articulações

O aparecimento ou a piora de dores articulares, principalmente quando acompanhadas de inchaço e rigidez ao acordar, pode indicar inflamação.

Mãos, punhos e outras articulações podem ficar doloridos, dificultando tarefas como abrir potes, vestir-se ou segurar objetos.

Dor persistente, inchaço ou perda de função merecem avaliação, especialmente quando representam uma mudança em relação ao seu padrão habitual.

2. Novas lesões na pele, feridas na boca ou queda de cabelo

Manchas avermelhadas no rosto, lesões em áreas expostas ao sol, feridas na boca ou no nariz e aumento da queda de cabelo podem aparecer durante a atividade do lúpus.

As úlceras orais nem sempre doem. Por isso, pequenas feridas recorrentes também devem ser relatadas na consulta.

Essas alterações precisam ser examinadas: queda de cabelo, por exemplo, também pode ocorrer por deficiência de ferro, alterações hormonais ou outras causas. A proteção solar faz parte dos cuidados de quem tem lúpus.

3. Cansaço mais intenso e febre

Uma piora importante da disposição, com dificuldade para realizar atividades habituais, pode acompanhar a atividade da doença. Febre também pode ocorrer.

Entretanto, febre em uma pessoa com lúpus exige atenção para infecção, sobretudo durante o uso de medicamentos imunossupressores. Não aumente o corticoide por conta própria supondo que seja uma crise.

A fadiga isolada também não confirma atividade: sono inadequado, anemia, fibromialgia e alterações da tireoide precisam ser considerados.

4. Inchaço e mudanças na urina

Inchaço nas pernas ou ao redor dos olhos, urina persistentemente espumosa, sangue na urina e elevação da pressão arterial podem indicar comprometimento dos rins.

A inflamação renal associada ao lúpus é chamada de nefrite lúpica. Porém, ela pode começar sem dor e sem mudanças perceptíveis na urina.

Sentir-se bem não substitui os exames de acompanhamento. Alterações urinárias e da pressão arterial podem ser as primeiras pistas de inflamação renal. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)

5. Dor no peito ao respirar ou falta de ar

O lúpus pode provocar inflamação das membranas que envolvem os pulmões e o coração, causando dor que piora ao respirar profundamente.

Mas dor no peito e falta de ar também podem resultar de infecção, trombose ou outros problemas potencialmente graves. Procure atendimento imediato diante desses sintomas, principalmente se forem novos, intensos ou acompanhados de desmaio.

Esses cinco grupos de manifestações ajudam a reconhecer mudanças relevantes, mas não representam todas as formas de atividade do lúpus. (niams.nih.gov)

Quais exames solicitamos para avaliar a atividade do lúpus?

Os exames são escolhidos conforme o histórico, os sintomas, os órgãos envolvidos e os medicamentos utilizados. Entre os mais frequentes estão:

* Hemograma: avalia anemia e alterações nos glóbulos brancos e nas plaquetas. Essas mudanças podem estar relacionadas ao lúpus, aos medicamentos ou a outras causas.
* Creatinina e estimativa da função renal: ajudam a avaliar como os rins estão funcionando.
* Urina tipo 1, com análise do sedimento: pesquisa proteína, sangue e outras alterações que podem indicar comprometimento renal.
* Quantificação da proteína na urina: geralmente feita pela relação proteína/creatinina em uma amostra; em algumas situações, utiliza-se a coleta de 24 horas.
* Complemento C3 e C4: a redução desses componentes pode acompanhar a atividade da doença.
* Anti-DNA de dupla hélice, ou anti-dsDNA: sua elevação pode contribuir para a avaliação, especialmente em determinados pacientes com comprometimento renal.
* VHS e proteína C reativa, ou PCR: ajudam a avaliar inflamação, mas não confirmam nem excluem uma crise isoladamente.

Também podemos solicitar exames para monitorar a segurança do tratamento e investigar sintomas específicos. Os resultados precisam ser comparados com avaliações anteriores e interpretados junto ao exame clínico. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov, pmc.ncbi.nlm.nih.gov)

O FAN mostra se o lúpus está ativo?

O FAN não é um exame adequado para acompanhar a atividade do lúpus. Ele pode permanecer positivo mesmo quando a doença está controlada.

Da mesma forma, anti-DNA elevado ou complemento baixo, isoladamente, não determinam que o tratamento deva ser aumentado. Essas alterações podem indicar a necessidade de acompanhamento mais próximo. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov, doi.org)

Por que manter o acompanhamento mesmo sem sintomas?

O seguimento regular permite detectar alterações silenciosas, avaliar a resposta ao tratamento e acompanhar possíveis efeitos dos medicamentos.

A frequência das consultas é individualizada. Durante a atividade da doença, os retornos costumam ser mais próximos. Mesmo sem doença renal conhecida, o ACR recomenda pesquisar proteína na urina pelo menos a cada seis a doze meses e também quando houver atividade do lúpus em outros órgãos. (rheumatology.org)

Não suspenda as medicações porque está se sentindo bem. O tratamento busca manter a doença controlada e reduzir o risco de danos aos órgãos — objetivos reforçados pelas recomendações da EULAR. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)

Quando antecipar a consulta?

Entre em contato com seu reumatologista diante de novos sintomas, piora persistente ou alterações nos exames. Febre durante imunossupressão merece avaliação rápida. Dor no peito, falta de ar, convulsão ou confusão mental exigem atendimento de urgência.

Para quem procura reumatologista em Jundiaí, o acompanhamento individualizado ajuda a reconhecer mudanças e organizar os cuidados necessários para o controle do lúpus.

Dra. Lara Ribeiro — Reumatologia em Jundiaí.

Conteúdo educativo. A avaliação da atividade do lúpus deve ser individualizada.

Referências

* Fanouriakis A et al. EULAR recommendations for the management of systemic lupus erythematosus: 2023 update. Annals of the Rheumatic Diseases. 2024;83:15–29.
* American College of Rheumatology. 2024 ACR Guideline for the Screening, Treatment, and Management of Lupus Nephritis.
* British Society for Rheumatology. The 2026 guideline for the management of children, young people and adults with systemic lupus erythematosus.
* Mosca M et al. EULAR recommendations for monitoring patients with systemic lupus erythematosus in clinical practice and in observational studies. Annals of the Rheumatic Diseases. 2010;69:1269–1274.

Doenças autoimunes e saúde mental: entenda a relação entre dor crônica, ansiedade e depressão

Por Dra. Lara Ribeiro Teixeira – Reumatologista em Jundiaí

Receber o diagnóstico de uma doença autoimune ou reumatológica como lúpus, artrite reumatoide, espondilite anquilosante ou fibromialgia – não afeta apenas o corpo. Afeta também a forma como a pessoa se vê, planeja o futuro e lida com o dia a dia. Não é incomum que, junto com o diagnóstico, venham sentimentos de medo, luto pela vida “como era antes”, ansiedade sobre o que vem pela frente e, em muitos casos, sintomas depressivos.

Neste artigo, quero abordar um aspecto do cuidado reumatológico que considero tão importante quanto o tratamento medicamentoso: a saúde emocional do paciente autoimune.

O impacto emocional do diagnóstico

Doenças autoimunes costumam ser crônicas, imprevisíveis e, muitas vezes, invisíveis para quem está ao redor. Essa combinação já é, por si só, um terreno fértil para o sofrimento emocional. O paciente frequentemente enfrenta:
• Incerteza sobre a evolução da doença
• Mudanças na rotina, no trabalho e nas relações pessoais
• Dor persistente, que desgasta física e emocionalmente
• Sensação de não ser compreendido, já que muitos sintomas não são visíveis
• Medo de limitações futuras

Esse conjunto de fatores explica por que a literatura médica mostra taxas de ansiedade e depressão significativamente mais altas em pacientes com doenças reumatológicas do que na população geral.

A relação entre dor crônica e depressão

A relação entre dor crônica e depressão é bidirecional ou seja, uma condição alimenta a outra em um ciclo que pode se retroalimentar. Estudos mostram que ter uma das duas condições aumenta o risco de desenvolver a outra, e que a dor está fortemente associada ao início e à recaída de quadros depressivos.

Essa relação também é dose-dependente: quanto mais intensa a dor, maior tende a ser a gravidade dos sintomas depressivos associados. Pesquisas recentes em neurociência têm avançado no entendimento dos mecanismos por trás dessa conexão, mostrando que dor crônica e depressão compartilham vias neurobiológicas comuns envolvendo neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e glutamato, além de processos de sensibilização do sistema nervoso central. Ou seja: não é “força de vontade”. Existe uma base biológica real conectando dor persistente e sofrimento emocional.

Em pacientes com artrite inflamatória, especificamente, essa relação bidirecional entre dor e depressão também já foi demonstrada em estudos de acompanhamento de longo prazo, reforçando a importância de avaliar rotineiramente os dois aspectos físico e emocional nas consultas.

Fibromialgia: um exemplo claro de como o emocional impacta o físico

A fibromialgia é, talvez, o exemplo mais evidente dentro da reumatologia de como o estado emocional influencia diretamente os sintomas físicos e vice-versa.

Hoje entendemos a fibromialgia principalmente como uma síndrome de sensibilização central: o sistema nervoso central se torna hiper-responsivo, amplificando sinais de dor que, em condições normais, não seriam percebidos como dolorosos. Essa sensibilização está intimamente ligada a alterações no sono, no processamento emocional e nos níveis de estresse.

Um padrão que observo com frequência na prática clínica e que é respaldado pela literatura científica é a seguinte sequência:

1. O paciente começa a apresentar distúrbios do sono e ansiedade, muitas vezes ligados a um período de estresse importante na vida

2. O sono não reparador, mantido ao longo do tempo, favorece um estado de sensibilização do sistema nervoso

3. Só depois desse processo é que surgem, de forma mais evidente, as dores generalizadas pelo corpo, características da fibromialgia

 

Pesquisas mostram que o sono não reparador é um dos preditores mais fortes de dor generalizada, e que a privação de sono pode, isoladamente, aumentar a sensibilidade à dor mesmo em pessoas sem fibromialgia. Ou seja: em muitos casos, o sono ruim e a ansiedade não são consequência da dor – são parte da origem dela.

Essa é uma inversão importante em relação ao que muitos pacientes (e até profissionais) imaginam. Por isso, tratar fibromialgia apenas com medicação para dor, sem abordar sono e saúde emocional, tende a trazer resultados limitados.

Por que a avaliação psicológica e psiquiátrica é parte do tratamento

Como reumatologista, reforço sempre aos meus pacientes: cuidar da mente não é “extra” no tratamento de uma doença autoimune ou reumatológica é parte do tratamento.

Isso não significa que todo paciente precise de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico permanente, mas significa que essa avaliação deve estar sempre no radar, especialmente quando:
• Há sinais de ansiedade ou tristeza persistente
• O sono está comprometido
• A dor não responde como esperado ao tratamento medicamentoso habitual
• Há sinais de esgotamento emocional, isolamento social ou perda de interesse em atividades antes prazerosas

Nesses casos, encaminhar para psicologia e, quando indicado, para psiquiatria não é sinal de que “a doença é psicológica” é reconhecer que o sistema nervoso central, o estado emocional e a percepção de dor estão profundamente conectados, e que tratar apenas uma parte do quadro reduz a chance de uma resposta clínica completa.

O conceito de bem-estar integral

Cada vez mais a reumatologia caminha para um modelo de cuidado integral, que olha para o paciente além dos exames e da medicação. Isso inclui:
• Acompanhamento médico especializado
• Atenção à saúde do sono
• Suporte psicológico ou psiquiátrico quando indicado
Atividade física orientada
• Suporte social e familiar

Esse modelo não é “medicina alternativa” é o que as evidências científicas atuais apontam como a abordagem mais eficaz para doenças em que corpo e mente estão tão interligados, como é o caso da fibromialgia e de muitas doenças autoimunes.

Conclusão

Se você convive com uma doença autoimune ou reumatológica e percebe que a ansiedade, a tristeza ou o sono ruim têm feito parte da sua rotina, saiba que isso não é “frescura” nem algo à parte da sua doença é parte dela, e merece cuidado tanto quanto os sintomas físicos. Fale sobre isso com seu reumatologista. O tratamento mais eficaz é sempre aquele que olha para a pessoa como um todo.

Sobre a autora: Dra. Lara Ribeiro Teixeira é médica reumatologista formada pela UNICAMP, membro da Sociedade Brasileira de Reumatologia e da Sociedade Paulista de Reumatologia, com atuação em Jundiaí/SP no diagnóstico e tratamento de doenças autoimunes e reumatológicas.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica, psicológica ou psiquiátrica. Se você está passando por sofrimento emocional significativo, procure ajuda profissional.

Referências:
• Estudos sobre relação bidirecional entre dor crônica e depressão, incluindo mecanismos neurobiológicos compartilhados (neurotransmissores, sensibilização central)
• Pesquisas sobre fibromialgia como síndrome de sensibilização central e seu vínculo com distúrbios do sono e ansiedade
Revisões sobre dor e depressão em artrite inflamatória
• Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) – reumatologia.org.br

Doença de Behçet: o que é, sintomas e novas perspectivas de tratamento

Por Dra. Lara Ribeiro Teixeira – Reumatologista em Jundiaí
A Doença de Behçet é uma condição inflamatória crônica, rara e ainda pouco conhecida do público, que pode afetar múltiplos sistemas do corpo da pele aos olhos, passando por articulações, vasos sanguíneos e, em casos mais graves, o sistema nervoso. Por ser uma doença de diagnóstico complexo e sintomas que se confundem com outras condições, muitos pacientes demoram anos até receber o diagnóstico correto.
Neste artigo, explico o que é a doença, como reconhecer os sinais de alerta e quais são as recomendações mais recentes de tratamento segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a EULAR (European Alliance of Associations for Rheumatology) e o ACR (American College of Rheumatology).

O que é a Doença de Behçet?

A Doença de Behçet – também chamada de Síndrome de Behçet é uma vasculite sistêmica, ou seja, uma inflamação que pode acometer vasos sanguíneos de diferentes tamanhos em várias partes do corpo. É considerada uma doença autoimune e autoinflamatória, mais comum em países ao longo da antiga Rota da Seda (Turquia, Irã, países do Mediterrâneo e da Ásia), mas que também ocorre no Brasil, embora seja mais rara por aqui.
O nome é uma homenagem ao dermatologista turco Hulusi Behçet, que descreveu a tríade clássica da doença em 1937: aftas orais recorrentes, úlceras genitais e inflamação ocular (uveíte).

Principais sintomas

Os sintomas variam bastante de pessoa para pessoa, e nem todos os pacientes apresentam todas as manifestações. Os mais comuns incluem:
  • Aftas orais recorrentes – geralmente o primeiro sintoma a aparecer, e o mais frequente
  • Úlceras genitais – dolorosas e recorrentes
  • Manifestações oculares – uveíte, que pode ameaçar a visão se não tratada a tempo
  • Lesões de pele – como eritema nodoso e lesões semelhantes a foliculite
  • Artrite – dor e inchaço articular, geralmente não erosiva
  • Manifestações vasculares – tromboses venosas, aneurismas arteriais
  • Envolvimento neurológico – mais raro, mas potencialmente grave
  • Envolvimento gastrointestinal – úlceras no trato digestivo
Por ter um espectro tão amplo de manifestações, o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em critérios internacionais e na exclusão de outras doenças com quadro semelhante.

Novas perspectivas de tratamento

O tratamento da Doença de Behçet mudou nos últimos anos, e a atualização mais recente das recomendações da EULAR, publicada em 2025, trouxe mudanças importantes em relação à versão anterior de 2018.

O que dizem as diretrizes atuais

Segundo a atualização 2025 das recomendações EULAR, para manifestações mucocutâneas e articulares, a colchicina continua sendo o tratamento de primeira linha. Para pacientes que não respondem adequadamente, o apremilaste e imunossupressores como os inibidores do TNF-alfa passam a ser recomendados como próxima linha de tratamento.
Uma das mudanças mais relevantes é a orientação para casos com envolvimento de órgãos considerados de maior risco (olhos, vasos sanguíneos e sistema nervoso): as diretrizes atuais recomendam o uso mais precoce de anticorpos monoclonais anti-TNF, tanto para controlar uma crise ativa quanto para prevenir recidivas uma mudança em relação à abordagem mais conservadora de anos anteriores.
Para tromboses venosas agudas, incluindo tromboses de seios venosos cerebrais, a recomendação é o uso combinado de glicocorticoides e imunossupressores, com preferência para anticorpos monoclonais anti-TNF quando há indicação clínica.
As diretrizes também reforçam princípios importantes de cuidado geral:
  • A doença tem curso recidivante e remitente, exigindo tratamento individualizado conforme a atividade da doença e fatores de risco de cada paciente
  • É essencial uma abordagem multidisciplinar, envolvendo reumatologista, oftalmologista, dermatologista e, quando necessário, neurologista e gastroenterologista
  • Educação do paciente e decisão compartilhada são partes centrais do plano terapêutico
  • O objetivo do tratamento é prevenir dano irreversível a órgãos e maximizar a qualidade de vida do paciente

Por que isso importa para o paciente

Essas atualizações refletem um movimento importante na reumatologia: tratar de forma mais precoce e mais direcionada os casos de maior risco, evitando que complicações graves como perda de visão ou eventos vasculares se instalem. Ao mesmo tempo, para os casos mais leves, o tratamento permanece simples e acessível, começando pela colchicina.

Quando procurar um reumatologista

Se você tem aftas orais recorrentes associadas a outros sintomas como lesões genitais, alterações na visão, dores articulares ou lesões de pele que não cicatrizam – vale buscar avaliação com um reumatologista. O diagnóstico precoce é fundamental para iniciar o tratamento antes que ocorram complicações mais sérias, principalmente oculares e vasculares.
Sobre a autora: Dra. Lara Ribeiro Teixeira é médica reumatologista formada pela UNICAMP, membro da Sociedade Brasileira de Reumatologia e da Sociedade Paulista de Reumatologia, com atuação em Jundiaí/SP no diagnóstico e tratamento de doenças autoimunes e reumatológicas, incluindo terapias imunobiológicas.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um especialista.

Referências:

EULAR recommendations for the management of Behçet’s syndrome: 2025 update. Annals of the Rheumatic Diseases.

Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) – reumatologia.org.br

American College of Rheumatology (ACR) – rheumatology.org

Quando suspeitar de Lúpus? Conheça os primeiros sinais da doença e os tratamentos mais atuais

O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune crônica em que o sistema imunológico passa a atacar tecidos saudáveis do próprio organismo.
Por ser uma doença extremamente variável, pode acometer pele, articulações, rins, pulmões, coração, cérebro e células do sangue.
O diagnóstico precoce é um dos principais fatores para prevenir lesões permanentes e preservar a qualidade de vida.
Felizmente, os avanços da Reumatologia permitiram o desenvolvimento de novos tratamentos direcionados que modificaram significativamente o prognóstico dos pacientes.